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Tuesday, December 20, 2011

As aves

As aves eram feitas de cartão, penduradas por fios invisíveis num tecto pintado. Esvoaçavam sem bater as asas e chilreavam sem qualquer barulho. Viajavam por inúmeros sítios, os sítios mais belos de todos os cinco continentes do mundo, sem sequer saírem do quarto. A ele bastava-lhe fechar os olhos para se transformar numa daquelas aves de papel e migrar com elas, voando, voando, como se estivesse também ele suspenso por umas cordas invisíveis que lhe suportavam o peso. África e América do Sul eram os seus lugares predilectos. Gostava de ver a selva amazónica e os seus rios lamacentos serpenteado por entre a densa vegetação, deixando escapar os guinchos dos macacos pachorrentos e os ruídos dos papagaios histéricos. Gostava de subir e descer montanhas e cordilheiras, ver o manto branco de neve nos cumes, sentir o frio gelar-lhe a cara e por fim descer até uma qualquer povoação de índios de pele seca e curtida pelo vento frio, tomar uma chávena de chá quente acompanhada por um bolinho de mel. Gostava também da praia e do mar azul, ter a pele e cabelos salgados, as ondas a baterem-lhe nas costas e o sol quente a queimar-lhe a pele. Mas o que lhe dava realmente prazer, um prazer daqueles que ilumina a alma, era observar as pessoas, descobrir-lhes as feições, os hábitos e os costumes e compará-los entre si. Era a cor da pele, o tipo de cabelo, o formato dos olhos, do nariz, da boca, a língua, os risos, as tradições.

Para ele, aquelas aves feitas de cartão tinham o tamanho de águias e voavam livremente pelo céu azul, assim como voam os aviões, os pássaros e as borboletas. Não que os aviões voem espontaneamente, mas o facto é que voam a sério, a sério e a altitudes a que não chegam nem os pássaros nem as borboletas, tal e qual como para ele eram capazes de voar as aves de cartão... Sim, aquelas aves que ele próprio havia moldado e pintado eram para ele verdadeiras companheiras de voo, autênticas guias de viagens, eram as suas melhores amigas.

(...)
   

Sunday, December 11, 2011

A Olivia

A Olivia não tinha muitos sonhos, mas os sonhos que tinha eram sonhos a sério, não eram como aqueles sonhos que as pessoas sonham num dia e no dia seguinte já nem se lembram do que sonharam. Não, os sonhos da Olivia não eram desses. Desde pequenina, que um dos sonhos da Olivia era cantar. E cantar canções bonitas, não era cá cantar as porcarias que se fazem hoje, que toda a gente canta, ou melhor, nem canta gente nehuma, porque é tudo feito com efeitos e programas de computador. O sonho da Olivia era então cantar, mas só as canções bonitas. E cantava-as bem, por sinal. Um dia, ao pensar que ninguém a ouvia, até porque já era de noite e ela olhou para todos os lados mas não viu ninguém, a Olivia ia a percorrer a estrada a caminho de casa, e começou a cantar baixinho, e cantou e cantou, durante todo o caminho desde a mercearia até casa. Mas com tanta cantoria, esqueceu-se que só se tinha assegurado que não havia outros peões na rua passado um pouco de ter saído da mercearia, e agora que já tinha andado um bom pedaço, podiam haver outras pessoas no mesmo caminho que ela, e assim foi aumentando o tom de voz, até cantar num volume que qualquer pessoa podia ouvir. Enquanto cantava uma das suas canções bonitas, como aquelas de antigamente, não como estas de agora, a Olivia foi interpolada por um estranho de voz simpática, que lhe disse que se pudesse guardava a voz da Olivia numa caixinha para ouvir todos os dias antes de dormir. A Olivia assustou-se com a sombra da figura desconhecida, e foi a correr até casa. Ao abrir a porta, abraçou esbaforida a mãe, gritando que queriam raptá-la e guardá-la numa caixa por causa da sua voz. A mãe riu-se enternecida com os receios da pequena. Olivia, meu amor, ninguém te vai raptar... Com a tua voz até os anjos te queriam numa caixinha. 

Wednesday, November 9, 2011

A dor

Deita-se na cama e as lágrimas começam a verter. Esconde a cabeça na almofada com o máximo de força que consegue: quer tapar a claridade, calar os ruídos da rua, fazer parar a insoportável dor de cabeça. A maldita dor de cabeça. Atira a almofada num impulso brusco para o chão. Enquanto um oceano lhe escorre pelo rosto, apercebe-se que tem a camisa encharcada. Tira-a e cobre-se com uma manta. Cerra os olhos e tenta alcançar a escuridão total, o silêncio absoluto e a cura para a dor de cabeça. Mas apenas vê imagens de carne viva e ouve gemidos de dor enquanto a sua cabeça explode aos poucos. Tenta abstrair-se, pensar em livros que leu, em músicas que ouviu, em sítios que viajou. Nada resulta. Apenas carne. Dor. Finalmente desiste e entrega-se ao choro.

Quando chegou a casa, encontrou a filha deitada na cama, com o rosto envolvido numa manta ensopada. Não respirava. A claridade já não irrompia pelas janelas. Já nao se ouviam ruídos vindos da rua. A dor de cabeça parara.

Sunday, May 8, 2011

Capítulo I

O palco ainda estava escuro. Em breve a luz dos holofotes recairia sobre si e iluminaria o seu cabelo negro e os seus olhos cor de esmeralda. Ouvia conversas cruzadas por trás da cortina que a separava do mundo. Aqueles instantes iniciais eram os que a deixavam mais nervosa. Estás pronta, Eva? Começas daqui a 2 minutos.


A plateia ainda estava iluminada. Em breve apagar-se-iam as luzes, cairia a escuridão sobre o público e os rostos seriam dissipados. A cortina estava caída, mas já se ouviam os leves passos da bailarina através desta. Aqueles instantes inciais eram os que o deixavam mais expectante. Francisco? Francisco, nao ouves o que te digo?


Finalmente o pano elevou-se e deu lugar a uma figura vestida de um branco resplandecente, contrastando com a escuridão à sua volta.


Francisco, embevecido, murmurou: Mas é um anjo!


Friday, September 24, 2010

Hit the road Jack!

"Não podia haver sítio mais apropriado", pensou.
O ambiente era escuro, iluminado apenas por uns quantos candeeiros a petróleo dispostos em algumas mesas.
Avançou por entre os homens de preto e avistou uma mesa vazia junto ao piano. Sentou-se, tirou o lenço amarelo da mala e pô-lo à volta do pescoço. Pediu um Martini Classic, recostou-se na poltrona e acendeu uma cigarrilha.
- Peço desculpa pelo atraso - galanteou-a, enquanto tirava o chapéu de coco e lhe beijava a mão.
- Tem que agradecer aqui ao pianista, se não fosse ele já me tinha ido embora.
- Ora, com certeza que esperava.. Ah gosta? É bastante falado agora, foi encontrado num coro. Na minha opinião só tem estado agora na luz da ribalta porque é cego.
- Discordo, penso que ele é de facto muito talentoso, apesar da sua limitação visual. Mas chega de conversa de café, estou aqui para tratar de negócios.
- Minha querida, estamos num café portanto não é totalmente desadequado este tipo de conversa. Impiegato, dammi un altro Martini! - gritou para o empregado.

So don't set me free, Though I've done you wrong, Baby can't you see, Without you I can't get along, Keep me in a state of agony, Make me miserable as can be, And whatever you do to me, Don't set me free!

- Confirmei agora a minha opinião anterior: sente-se a emoção que este homem transpõe para a música! E esta letra? Fascinante! Ainda para mais, teve um timming perfeito.
- É uma letra contraditória! De louco! Quer que o mantenham em estado de agonia e que o façam miseravel, desde que não o libertem, desde que continue "preso"? De louco, repito! Mas que falou do timming, minha querida?
- Discordo de si, mais uma vez. Ah, o timming..! - levantou-se e tirou uma espécie de carteira do bolso interior do casaco, deixando cair o lenço amarelo em cima do cadeirão - O timming.. Sabe, esta canção foi boa para si, pode interiorizá-la e pode ser que passe melhor os próximos 25 anos da sua vida. O senhor está preso - mostrou-lhe o distintivo - As acusações são de posse e tráfico de droga, gerência de prostíbulos e casa de jogo, forja de apostas, controlo de informantes, subornos, e esta lista continua.. Tem o direito de ficar calado e de chamar o seu advogado. Queira acompanhar os meus colegas que ficarão consigo a partir de agora.
Pegou no seu lenço amarelo, deixou-se cair no cadeirão e acendeu outra cigarrilha. Deu um profundo bafo, fechou os olhos e concentrou-se na música.

What you say? Hit the road Jack, and don't you come back no more, no more, no more, no more.

Sunday, August 8, 2010

Corre, Corre, Corre!

Olhou para baixo. Viu os seus pés descalços sob um infinito tapete verdejante, com papoilas vermelhas a espreitar, aqui e acolá. Sentiu as ervas altas molharem-lhe os tornozelos, e ouviu o chilrear dos pássaros em cima de si. Corre! Deu um passo, e viu dois coelhos a fugir. Corre! Corre! Corre! Correu. Correu e correu, por aquele enorme mar de verde com pequenas conchas encarnadas. Corre! E enquanto corria, deixou cair o bonito casaco de malha que levava aos ombros. Corre! E enquanto corria, sentia o seu vestidinho de linho branco ficar molhado e sujo. Corre! E enquanto corria, sentiu todas as suas prisões a desmoronarem. Corre! E enquanto corria, levantou vôo. E enquanto levantava vôo, sorria.

Friday, April 16, 2010

- Quem és tu?
- Quem sou eu?
- Sim, quem és tu!
- Eu sou eu. E tu, quem és?
- Eu sou a Alice. Mas quem és tu?!
- O que é que isso importa? No fundo, eu sou tu, e tu és eu. Somos todos iguais. Carne, osso, células. Tu és eu e eu sou tu. Eu, tu, ele, ela. Nós, vós e eles. Somos todos o mesmo.
- Está certo, mas mesmo assim, quem és tu?

Friday, March 5, 2010

I Could Have Danced All Night

- Posso?
Era o que me faltava agora, pensou.
Não tinha paciência para conversas com desconhecidos em bares, paragens de autocarro, ou em qualquer outro lugar. Ainda assim, olhou para trás. Uns enormes olhos cor de mel fixavam-na. Um rosto redondo, moreno e umas enormes ondas pretas a vaguear no cabelo saudaram-na.
Surpreendeu-se e apontou para o banco vazio ao lado do seu:
- É todo teu.
O rapaz pousou com extremo cuidado uma pasta cor-de-laranja flurescente no chão e tomou o lugar que lhe era apontado.
- Quero o mesmo que ela.

- Olha que isto é forte - avisou-o.
Rodou no banco, apanhou a sua mala do chão e tirou um cachimbo.
- Não tens idade para fumar essas coisas! - disse escandalizado o rapaz.
- E tu já nao tens idade para andares com pastas cor-de-laranja flurescente.
O empregado pousou o copo no balcão. O rapaz deu lhe um golo e mudou de cor. Engasgou-se.
- Não tens idade para beberes estas coisas!
- E tu não tens idade para dar sermões a ninguém - bebeu o resto num só trago.
- Tens nome ou..?
- Verónica. Costumas vir para bares meter conversa com raparigas?
- Só quando estão com um copo de whisky à frente e com um cachimbo na boca.

Ela sorriu.
- Danças?
- Quando há musica, sim.
- Não a ouves?
Ele sorriu.
Levantaram-se, e junto a um balcão de um bar cheio, dançaram ao som do silêncio.

Thursday, February 18, 2010

- Mamã, mamã! O papá chegou! Já posso fazer o teatro?!
- Verónica, mais baixo querida! O papá deve estar cansado...
- Nunca estou cansado para a nossa pequenina!
Deixou cair a pasta no chão e Verónica saltou-lhe para o colo. Desequilibrou-se, mas agarrou-se rapidamente ao corrimão.
- António! Verónica, para o chão imediatamente!
- Mas mamã...
- Nem mas nem meio mas! Lá para cima, já!
A menina cerrou os dentes e arrastou-se até ao quarto.
- António, isto não pode continuar assim! Com a miúda a atirar-se desta maneira para cima de ti não duras muito! Sabes perfeitamente que na tua condição não podes andar para aí a…
- Dança comigo.
- António..!
- Vá lá, chega de conversa fiada. Vamos dançar, vamos ver o teatro da nossa filha, vamos jantar e vamos dormir. E amanhã vamos acordar e vamos comer um pequeno-almoço digno de hotel. E no fim-de-semana vamos até Cascais, ver o mar. E agora, mademoiselle, se me dá a honra desta dança…


E dançaram, e viram o teatrinho da pequena, e foram dormir. E comeram um pequeno-almoço digno de hotel, e no fim-de-semana foram ver o mar a Cascais. E tornou-se num hábito que durou todos os dias até ao último dia de António Antunes, pai, marido, e grande artista do teatro português.

Estava sentada em frente ao toucador, a retocar os lábios. Tinha os olhos carregados de preto e no cabelo levava uma rosa vermelha.
- Estás pronta, Verónica?
- Sim. Onde está o Roberto?
- No camarim dele, pergunta por ti.
- Diz-lhe que vou já.
Olhou-se uma última vez ao espelho e levantou-se. Respirou fundo, esboçou um sorriso falso e saiu.
- Mas tu estás parvo Roberto? Está a casa cheia e tu andas a fumar essas merdas?!
- Estou farto disto, Verónica. Vais ver, um dia…
- Já sei, um dia vais ser um grande actor, vais actuar no Maria Vitória, vais fazer um musical com o La Féria, e tudo mais. Eu já sei, Roberto, já sei... Mas até lá vais deixar-te destas porcarias que só te destroem a vida e vamos dar a estas pessoas aquilo que elas querem, um óptimo espectáculo. Porque é isso que nós fazemos Roberto. Porque independentemente do nosso estado de espírito, as pessoas querem um bom espectáculo. E é para isso que somos pagos. E de certeza que é isso que o La Féria espera dos seus actores. Agora apaga essa porcaria e lava a cara. Daqui a três minutos entramos.

Fechou a porta e escondeu-se atrás duma cortina. Tirou um saquinho com pó do decote e inspirou-o. Hipócrita, ouviu-se dizer.

doce de morrer.

Passados três anos, a neta passa pelo hospital onde esteve a sua avó internada nos ultimos meses de vida. Lembra-se..

- Vamos lá menina, abre o raio do armário!
- Tenha calma avó!
- Calma? Estão as pessoas a chegar, temos que esconder os chocolates!

A neta bateu com a mão na testa.
- Tantos chocolates ainda vao matá-la, avó.

Sunday, October 18, 2009

(Love is our) Resistance

E no meio daquela tempestade polar, ele correu com todas as forças que tinha. A chuva batia-lhe na cara e torvava-lhe a visão, o vento gelava-lhe os pulmões e dificultava-lhe a respiração, o solo gelado colava-lhe os pés descalços. No meio daquela imensidão branca, apenas via a cara dela na sua frente. "Nao me deixes.." - gritava - "Não me deixes!".

A cortar a cortina de neve, uns flaxes azuis escuros feriam-lhe os olhos. Ouviu o grito das sirenes ao longe. Com um poder sobre humano, redobrou a velocidade. Chegou ao local. Em pânico, olhou para todos os lados em busca de um sinal. Enquanto percorria visualmente toda a área envolvente, avistou-a.

Os seus olhos pousaram nela, e o seu corpo voou até lá. Viu as suas maças do rosto, outrora maduras e vermelhas, palidas, ainda mais brancas que a neve. Os seus olhos azuis vivos estavam agora translúcidos.

Abraçou-a, e o seu corpo, outrora quente, estava gelado como a noite. Deu um berro de desespero. Despiu-se e tapou-a com as suas roupas. O médico tentou afasta-lo dela, e ele esperneava, pontapeava, afastava-o.

Agarrado a ela, chorou, gritou, blasfemeou. Agarrado a ela, viu a vida passar-lhe em retrospectiva. Agarrado a ela, viu o momento em que tinha visto pela primeira vez aquele rosto angelical. Recordou as viagens que tinham feito juntos, os caminhos que tinham traçado, as pessoas com que se tinham cruzado. Pensou em como teria sido a sua vida sem ela.

Voltou a fitá-la, e viu, no meio da escuridão, que ela lhe sorria.

"Até amanha meu amor", murmurou.

Wednesday, September 30, 2009

Agosto 1978 - Iquitos, Peru

Ela abrira lentamente os olhos, e uma claridade verde pintava-lhe o rosto. Ouvia o chilrear das aves e os ruídos dos macacos, enquanto inalava uma estranha fragância de terra molhada misturada com o cheiro de excrementos dos animais.
Saiu da sua tenda cuidadosamente e espreguiçou-se. Olhou em seu redor: estava circundada por uma densa camada de verde e castanho. Os raios de sol espreitavam a medo entre as folhagens, deixando apenas ver uns pozinhos do azul do céu.
Pegou numa esteira, foi à sua mochila, tirou a sua tigela e o seu pacote de Cornflakes e tomou o pequeno almoco em silencio, tentando decifrar os ruidos à sua volta.
A rotina de verdes que a abraçava foi quebrada pelo azul dum papagaio solitário que foi pousar no ramo duma árvore. Ficou extasiada com aquela cor.

Tuesday, March 24, 2009

O Quarto da Casinha Amarela

Maria correu as cortinas do quarto bafiento. Abriu as janelas de par em par e deixou a casa arejar. Há quanto tempo nao ia lá? Nem se lembrava, tantos tinham sido os anos.. Tinha vivido la os melhores momentos da sua vida, caramba! Há quanto tempo tinha sido..? Destapou o pano que cobria o seu antigo espelho. Olhou-se, e viu o seu reflexo por entre as camadas de pó. Sim, tinha sido de facto há muito tempo.. Da sua beleza radiante de outrora, apenas lhe restavam os seus olhos cor de amêndoa e traços do seu sorriso.

De uma só vez, puxou os lençóis que tapavam a cama, de seguida os que tapavam a comoda, a escrivaninha, o toucador, o canapé, a estante - toda a alma do quarto ficou desnuda. Segundos depois, viu uma camada de pó flutuar sobre todo o espaço. Tenho mesmo que fazer uma limpeza nesta porcaria toda, pensou. Enquanto estudava o estado degradado das paredes, deu com uma maçaneta. Rodou-a e uma porta disfarçada pela espessa camada de sujidade abriu-se, revelando uma salinha com uma mesa no centro e com algum outro objecto estranho em cima. Maria aproximou-se. Já nem se lembrava daquela sala.. Tão pouco reconhecia o objecto que estava em cima da mesa. Pôs os óculos. OH!, surpreendeu-se. OH!, gritou. OH!, sorriu. Será que..? Olhou mais de perto. OH! extasiou-se!

Era a sua grafonola! Aquela mesma grafonola, naquele mesmo sitio! Como é que me fui esquecer deste sitio?! Procurou uma tomada electrica, e depois de muito remexer, lá encontrou uma. Foi á grafonola. Será que toca? Ligou o aparelho. A música começou. OH!, emocionou-se. Uma lagrima caiu-lhe ao longo do rosto. Era a última musica que haviam dançado.

Wednesday, February 18, 2009

Casinha Amarela

Maria sentou-se na sua cadeira de balouço, no alpendre de madeira. Recostou-se. Sentiu uma brisa vinda do mar. Cerrou os olhos e relembrou.

Ele deu-lhe uma flor. Era uma flor branca e, apesar de ser de papel, era perfumada. Naquele momento não lhe interessava se o cão estava a ladrar, se a casa estava a arder ou se o céu estava a cair. Apenas lhe interessava a flor e o seu cheiro suave, mas no entanto penetrante.
- Esta flor caracteriza-te - segredou-lhe ele - Tem a tua delicadeza, a tua beleza, o teu encanto. Este cheiro representa-te: intenso, contudo, suave. A cor simboliza a tua paz de alma, a paz em que vives e a paz que transimtes aos outros. - fez uma pausa - Não penses que te dei esta flor isoladamente por preguiça ou descuido. Não. Apenas não a quis banalizar, ser uma entre tantas outras. Quero que seja uma flor especial, única.
Ela olhou para a flor. Analisou-a de perto. Sentiu o seu aroma percorrer-lhe o corpo. Arrepio. Reparou detalhadamente nos promenores. Não havia falhas, era uma flor perfeita.
Olhou para cima e viu uns grandes olhos verdes a observa-la.
- Amo-te.

Agora, passados cinquenta e quatro anos, sentada na sua cadeira de balouço no alpendre da sua casinha amarela, olhou para a flor, e apesar desta estar quase desfeita e sem qualquer cheiro, ouviu na sua cabeça a voz dele:
- Esta flor caracteriza-te. Tem a tua experiência, a tua sabedoria. A cor simboliza a tua pureza, e a ausência de cheiro representa tudo o que já viveste e que te já é intrínseco. Representa a não necessidade de adornos e adereceços. Representa a maturidade. Representa o apogeu, a plenitude da vida.
Olhou para cima e viu o céu. Sentiu-se observada.
- Amo-te.

Thursday, January 15, 2009

A menina e o pássaro

Era uma vez uma menina que vivia numa gaiola. E era uma vez um pássaro livre.
A menina vivia uma vida rotinária por entre as grades que a aprisionavam.
O pássaro vivia voando pelos mais belos lugares do mundo.
A menina observava o pássaro pelas brechas da gaiola e invejava-o. A gaiola da menina era até espaçosa, e à primeira impressão, ninguém diria que ela estava presa. Muito menos diriam que se sentia sentia presa. A verdade é que, para a menina, bastava sentir que tinha à sua volta umas barras de metal, por mais distantes que fossem, para se sentir aprisionada.
Um dia, ao ver o pássaro sobrevoar a sua gaiola, disse para si mesma: "Há de chegar o dia em que me vou libertar desta prisão que me rebaixa, desta gente que me prende, desta rotina que me consome. E aí serei livre como tu, verei, como tu, os mais belos lugares do mundo, não terei que me justificar perante ninguém, sairei quando quiser, voltarei quando quiser, rirei quando quiser, chorarei quando quiser, sentir-me-ei ridicularmente feliz quando me apetecer e estupidamente triste mesmo sem ter motivo para isso. E aí, quando puder viver como, quando, onde, e com quem me apetecer, aí sim, estas prisoes finalmente desaparecerão!"

E o pássaro voou em direcção ao infinito.

Thursday, November 20, 2008

O salão

O salão estava decorado para a ocasião. A luz estava difusa, as sombras misturadas. Com as tonalidades alaranjadas que as velas conferiam, tudo parecia mágico. Um simples objecto ganhava movimento, ganhava outras formas, ganhava vida. Ali os sonhos da rapariga tornar-se-iam realidade, os seus pesadelos acabar-se-iam, desta vez definitivamente. A escadaria aguardava ansiosamente a descida teatral da menina-mulher, as janelas pareciam prontas para aplaudi-la e o chão preparava-se para fazer a grande apresentação. Aquele salão era o salão.

Os preparativos

A menina preparava-se. No seu quarto mirava o seu reflexo. A imagem que o espelho lhe devolvia parecia surreal: uma menina feita mulher, uma nova jovem, uma princesa. Os seus cabelos, outrora desgrenhados, parecendo searas de trigo, eram agora como fios de ouro. Os seus olhos, dantes parecendo relva seca, brilhavam agora como duas grandes esmeraldas. Vestiu o seu vestido púrpura, colocou a sua gargantilha de diamantes e apertou no pulso a sua pulseira cintilante. Limpou as lágrimas orgulhosas que teimavam em cair-lhe pelo rosto e observou pela última vez as suas antigas vestes que repousavam sobre a cama de dossel. Pegou nelas, dobrou-as com um sorriso de vitória, com um cuidado minuncioso, e acariciou as roupas até o sorriso se lhe desazer da cara, dando origem a uma expressao melancólica, a uma expressão de raiva. Ouviu a lenha a crepitar na lareira e pensou em acabar de vez com aquelas memórias, afinal de contas estou numa nova etapa da minha vida caramba, nao posso ficar para sempre presa ao passado! Quando estava prestes a atirar as roupas ao fogo, subitamente parou! Que estou eu a fazer? Estes tempos já lá vão, estão ultrapassados. Contudo não os posso esquecer, é graças a eles que sou como sou! Aí pensou que tinha que agradecer às pessoas que a haviam maltratado, desprezado, minimizado e usado. Agradecer-lhes pois graças a elas ela era agora uma mulher. Já nao era mais uma amostra, uma menininha a quem todos obedecia. Era uma pessoa, com caracter, opinioes e ideias fixas. Olhou de novo para as roupas, sorriu como nunca antes havia sorrido, foi à janela e gritou "OBRIGADA"!

A menina-mulher

Era uma vez uma menina. Uma menina que um dia superou os outros e se superou a si própria. Era uma vez uma menina que passou de menina a mulher.

Tuesday, February 19, 2008

Aquele sítio recordava-lhe alguma coisa. Sim. Lembrava-se de ser pequena e de brincar no meio daqueles caixotes. Daqueles contentores de memórias. Sim, era ali. Tinha a certeza. Também se lembrava daquele tapete. Aquele velho tapete que ela tinha molhado um dia. O tapete responsável por uma das grandes sovas que apanhara. Entrou. Sentou-se no chão e, meio a medo, abriu a caixa de cartão. Cheirava a velho. Hesitante, espreitou lá para dentro. Cartas. Todo o caixote eram cartas. Tirou uma - "Para o meu maior Deus". Abriu-a. Leu-a em silêncio. Uma lágrima escorreu-lhe pela face. Uma gota salgada, triste e pesada. De seguida foi atacada por uma súbita tormenta. Grossas lágrimas molhavam-lhe a cara, as mãos, chegando por fim à própria carta. Perdeu as forças e deitou-se no chão, dando conta que o tapete estava molhado. Sim, o tapete estava encharcado. Como naquela tarde há quinze anos atrás. A única diferença era que desta vez não havia ninguém para a repreender...