Maria correu as cortinas do quarto bafiento. Abriu as janelas de par em par e deixou a casa arejar. Há quanto tempo nao ia lá? Nem se lembrava, tantos tinham sido os anos.. Tinha vivido la os melhores momentos da sua vida, caramba! Há quanto tempo tinha sido..? Destapou o pano que cobria o seu antigo espelho. Olhou-se, e viu o seu reflexo por entre as camadas de pó. Sim, tinha sido de facto há muito tempo.. Da sua beleza radiante de outrora, apenas lhe restavam os seus olhos cor de amêndoa e traços do seu sorriso.
De uma só vez, puxou os lençóis que tapavam a cama, de seguida os que tapavam a comoda, a escrivaninha, o toucador, o canapé, a estante - toda a alma do quarto ficou desnuda. Segundos depois, viu uma camada de pó flutuar sobre todo o espaço. Tenho mesmo que fazer uma limpeza nesta porcaria toda, pensou. Enquanto estudava o estado degradado das paredes, deu com uma maçaneta. Rodou-a e uma porta disfarçada pela espessa camada de sujidade abriu-se, revelando uma salinha com uma mesa no centro e com algum outro objecto estranho em cima. Maria aproximou-se. Já nem se lembrava daquela sala.. Tão pouco reconhecia o objecto que estava em cima da mesa. Pôs os óculos. OH!, surpreendeu-se. OH!, gritou. OH!, sorriu. Será que..? Olhou mais de perto. OH! extasiou-se!
Era a sua grafonola! Aquela mesma grafonola, naquele mesmo sitio! Como é que me fui esquecer deste sitio?! Procurou uma tomada electrica, e depois de muito remexer, lá encontrou uma. Foi á grafonola. Será que toca? Ligou o aparelho. A música começou. OH!, emocionou-se. Uma lagrima caiu-lhe ao longo do rosto. Era a última musica que haviam dançado.
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