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Wednesday, December 28, 2011

I Object Your Honor!

Coisa que me irrita solenemente são as pessoas que não têm nada que fazer. Que não têm nada que fazer, vamos lá ver, refiro-me a um largo período temporal, que para muita gente é o mesmo que dizer que nunca têm nada para fazer. Porque não ter nada que fazer, também há alturas que eu tenho. E gosto. Oh, como gosto, aquelas manhãs a acertar os sonos, as tardes afundada no sofá a ver séries e filmes, o por do sol passado em esplanadas e as noites perdidas em cafés. Gosto, claro que gosto e toda a gente saudável deve gostar. Mas nunca ter nada para fazer? Quero dizer, nunca? Passar todo o santo dia a não fazer nada para além de dormir, comer, ver televisão e jogar jogos? E depois passar toda as santas noites na rua, em cafés, bares e tascas? Durante dias, semanas e meses seguidos?! Oh por favor. É que me irrita ao ponto de querer dar um tabefe em todos os jovens que se inserem nesta categoria. Olá? Geração à rasca? E que tal darem uso a esse corpinho e irem arranjar um trabalho? Já que não se dão ao luxo de ir para a escola para aprender e estudar como qualquer pessoa que se preze, ao menos façam algo de útil para a sociedade. Porque apesar de andarem a estimular a economia dos cafézinhos dos senhores Antónios e afins (de certeza que algum senhor António há de ter uma qualquer taberna), não é assim que vão a lado algum. A sério, quais são as perspectivas para o futuro desta gente? Viver em casa dos pais até aos 40? Viver do subsídio de desemprego, que por sinal é pago pelos contribuintes que se matam a trabalhar, para depois estas excelentíssimas almas andarem até às tantas a beber umas cervejolas e a comerem uns tremoços, sem nunca fazerem nada? Francamente. É que se há coisa que me irrita solenemente são pessoas que não tem nada para fazer, nunca. 

Wednesday, December 21, 2011

Alfama

Alfama é bairro, é aldeia, é vila, é cidade. No fundo, Alfama é capital. Não: é país. Alfama é fado, tanto musica como destino, é morte e é vida. Alfama é história e realidade, quem poderá distingui-las uma da outra? São teias de pessoas unidas pelos amores e desamores distantes que se cruzam na calçada, que espreitam pelas velhas janelas baças e que trocam pareceres debruçados nas fracas varandas verdes. Alfama é uma guitarra portuguesa dedilhada com saudade e é um saxofone brilhante tocado por algum artista de circo. É um turista perdido pelos caminhos estreitos e é um bairrista perdido por entre os copos de tinto. Alfama são os lavadoiros públicos abandonados, são estendais com roupas coloridas penduradas, são velhos a reviver memórias passadas dos seus tempos de mocidade, são crianças de bairro a jogar à macaca e a brincar com bolas feitas de papel. Alfama são ruas estreitas e ruelas largas, são brancas igrejas imponentes, miradouros e estátuas magistrais, jardins imaginados e bancos de azulejo azul nos jardins imaginados. São escadarias sem degraus, desgastados pelo tempo e pela história e são bares pequenos escondidos por baixo dessas mesmas escadarias difusas. Alfama é um grupo de amigos cantando canções de amor ao nascer do sol e é um bêbedo solitário murmurando canções fatalistas enquanto o sol se põe.


Alfama é uma noite em claro, é riso, é choro, é saudade. Alfama é noite, é dia, é fim da tarde e amanhecer. Alfama é lisboa, e Lisboa é Alfama. É a promessa do regresso. Agora e sempre.

Saturday, December 10, 2011

Pedras da Calçada

As pedras da calçada desenhavam figuras em tons de branco e de negro. Nelas, já centenas de caravelas, centenas ou milhares, navegaram por águas infindáveis; já milhares de marinheiros, sabe-se lá quantos ao certo, se perderam por mares e oceanos por esse mundo fora; já milhares de marinheiros ansiaram por terra firme e pelo calor das suas amadas, oh, desejos de uma simples visão do rosto dos seus amores; e já milhares de marinheiros, talvez mais, talvez menos, rejubilaram de alegria e alivio ao pisar as prometidas terras desconhecidas, e talvez ainda mais o pisar as ansiadas terras conhecidas. Nelas, já centenas de pessoas se perderam em labirintos e espirais em busca de algo, algo próprio a cada uma delas, sabe-se lá o que ao certo, já que tanto podem procurar uma moeda caída no chão, como podem procurar o seu passado, tudo isto nas pedras da calçada.

As pedras da calçada desenhavam figuras em tons de branco e negro. E quantos marinheiros ao certo se perderam, quantos sofreram e quantos se alegraram dentro de vós, pedras da calçada? Quantas pessoas exactamente se perderam e se encontraram nas vossas figuras? Quantas paixões se iniciaram, quantos beijos se trocaram, quantas discussões foram travadas e quantas pazes foram feitas, tudo isto sobre vós? Quantas histórias foram contadas, quantas foram imaginadas e quantas foram realmente vividas?


As pedras da calçada desenhavam figuras em tons de branco e negro. Mas quantas mais figuras estarão ainda para ser desenhadas, e quantas mais histórias contarão as pedras da calçada?

Thursday, December 8, 2011

Vida de (alguns) estudantes

Há precisamente três semanas que às quintas feiras ninguém trabalha: uma greve e dois feriados, três magnificas quintas feiras seguidas. E como é que é possível que, em todos estes três abençoados dias, não tenha conseguido descansar num único?

Trabalhos e mais trabalhos, pilhas de trabalhos acumulados, dossiers, cadernos, livros e computadores portáteis, são as únicas coisas que vejo à minha frente. Estratégia Empresarial, Gestão Integrada de Projecto, Finanças da Empresa, Empreendedorismo e Gestão Operacional. Cerimónias, Formações e Entrevistas.

A sério, a minha pergunta é: se o ano tem 365 dias, havia mesmo necessidade dos queridos docentes do ISCTE marcarem tudo isto para um espaço de menos de duas semanas? É que, francamente, para além dos 3 feriados, juntam-se-lhe mais dois sábados e um domingo que passei na faculdade a trabalhar. E este fim de semana espera-me o mesmo destino fatal.


Ontem ouvi num dos corredores um queixume de alguma alma inocente - "nunca mais acabam as aulas, preciso mesmo dumas férias". Até me deu vontade de rir de tamanha ambição. Oh minha gente, mas quais férias quais quê, eu a única coisa que queria era um fim de semana longe da faculdade.

Wednesday, November 9, 2011

A dor

Deita-se na cama e as lágrimas começam a verter. Esconde a cabeça na almofada com o máximo de força que consegue: quer tapar a claridade, calar os ruídos da rua, fazer parar a insoportável dor de cabeça. A maldita dor de cabeça. Atira a almofada num impulso brusco para o chão. Enquanto um oceano lhe escorre pelo rosto, apercebe-se que tem a camisa encharcada. Tira-a e cobre-se com uma manta. Cerra os olhos e tenta alcançar a escuridão total, o silêncio absoluto e a cura para a dor de cabeça. Mas apenas vê imagens de carne viva e ouve gemidos de dor enquanto a sua cabeça explode aos poucos. Tenta abstrair-se, pensar em livros que leu, em músicas que ouviu, em sítios que viajou. Nada resulta. Apenas carne. Dor. Finalmente desiste e entrega-se ao choro.

Quando chegou a casa, encontrou a filha deitada na cama, com o rosto envolvido numa manta ensopada. Não respirava. A claridade já não irrompia pelas janelas. Já nao se ouviam ruídos vindos da rua. A dor de cabeça parara.

Tuesday, November 8, 2011

Reflexos

As tuas impressões digitais perseguem-me em todo o lado; estão cravadas nas linhas do meu rosto. As tuas pegadas estão em cada passo que dou e a tua voz está em cada música que oiço. O teu toque está em tudo; está cravado nas minhas raízes e está enraizado no meu ser. E num retrato da vida, lá estão elas, as tuas impressões. Num segundo de vida que guardei numa imagem, lá estás tu, imóvel. E nessa mesma imagem lá está o meu segundo de vida perdido.

Mas o que é, afinal, real? O que sou eu, para além deste reflexo? Quem de nós é real? Eu, ou tu? O que é a realidade senão aquilo que conseguimos imaginar? Na minha realidade existe amor, amizade, esforço, cansaço. E na tua? Será que pertences a uma realidade, ou terás alguma realidade que te pertença? Ou será a tua realidade apenas um reflexo daquilo que a minha representa? Serás apenas um reflexo meu? Mas e quem serei eu, para além daquilo que vejo em ti reflectido..? E quando este meu percurso chegar ao fim, o meu corpo ficará na terra, eu ficarei na terra. E tu, meu reflexo? Talvez seja aí que inicias a tua viagem, vivendo além deste mundo, e passe a ser eu o teu reflexo. Mas o que seria, afinal, real? O que serias tu então, para além do meu reflexo?

Tu és eu, e eu sou tu. Até que a morte nos separe.

(e para além disso)

Sunday, May 8, 2011

Capítulo I

O palco ainda estava escuro. Em breve a luz dos holofotes recairia sobre si e iluminaria o seu cabelo negro e os seus olhos cor de esmeralda. Ouvia conversas cruzadas por trás da cortina que a separava do mundo. Aqueles instantes iniciais eram os que a deixavam mais nervosa. Estás pronta, Eva? Começas daqui a 2 minutos.


A plateia ainda estava iluminada. Em breve apagar-se-iam as luzes, cairia a escuridão sobre o público e os rostos seriam dissipados. A cortina estava caída, mas já se ouviam os leves passos da bailarina através desta. Aqueles instantes inciais eram os que o deixavam mais expectante. Francisco? Francisco, nao ouves o que te digo?


Finalmente o pano elevou-se e deu lugar a uma figura vestida de um branco resplandecente, contrastando com a escuridão à sua volta.


Francisco, embevecido, murmurou: Mas é um anjo!


Wednesday, February 9, 2011

Tenho em mim todos os sonhos do mundo

Hoje, enquanto olhava para o planisfério que tenho ao meu lado, peguei numa caneta de tinta permanente preta e comecei a fazer circulos em todos os paises que ja visitei: Portugal, Espanha, França, Itália, Republica Checa, Austria, Hungria, Eslovaquia, Tailandia, Laus, Moçambique, Africa do Sul, Cabo Verde, Marrocos, Cuba, Mexico, Peru e Bolivia. 18 países. A seguir circundei com a caneta as fronteiras dos paises a que quero ir: Austrália, India, China, Tibete, Inglaterra, Gronelândia, Guatemala, Argentina, Chile e Equador. Mais 10 países.

Quero viajar.

Durante um mês, dois, três meses. Durante um ano, dois, mais até. Mas não quero uma viagem de luxo, com hotéis e guias turisticos. Quero ir com a minha mochila às costas e ser guiada pelos locais. Quero emergir na cultura, fundir-me com o povo. Quero surfar nas águas do Índico, perder-me na floresta Amazónica, nadar no Pacífico, ver uma aurora boreal, percorrer a Grande Muralha, descalçar-me aos pés de Buda, ver o Dalai Lama, fazer parte de uma revolução na Argentina e passar pelos mesmo caminhos que Che e Bolivar. Oh, tantas coisas que eu quero..


São apenas sonhos que tenho, para mim e para a minha mochila.

Friday, September 24, 2010

Hit the road Jack!

"Não podia haver sítio mais apropriado", pensou.
O ambiente era escuro, iluminado apenas por uns quantos candeeiros a petróleo dispostos em algumas mesas.
Avançou por entre os homens de preto e avistou uma mesa vazia junto ao piano. Sentou-se, tirou o lenço amarelo da mala e pô-lo à volta do pescoço. Pediu um Martini Classic, recostou-se na poltrona e acendeu uma cigarrilha.
- Peço desculpa pelo atraso - galanteou-a, enquanto tirava o chapéu de coco e lhe beijava a mão.
- Tem que agradecer aqui ao pianista, se não fosse ele já me tinha ido embora.
- Ora, com certeza que esperava.. Ah gosta? É bastante falado agora, foi encontrado num coro. Na minha opinião só tem estado agora na luz da ribalta porque é cego.
- Discordo, penso que ele é de facto muito talentoso, apesar da sua limitação visual. Mas chega de conversa de café, estou aqui para tratar de negócios.
- Minha querida, estamos num café portanto não é totalmente desadequado este tipo de conversa. Impiegato, dammi un altro Martini! - gritou para o empregado.

So don't set me free, Though I've done you wrong, Baby can't you see, Without you I can't get along, Keep me in a state of agony, Make me miserable as can be, And whatever you do to me, Don't set me free!

- Confirmei agora a minha opinião anterior: sente-se a emoção que este homem transpõe para a música! E esta letra? Fascinante! Ainda para mais, teve um timming perfeito.
- É uma letra contraditória! De louco! Quer que o mantenham em estado de agonia e que o façam miseravel, desde que não o libertem, desde que continue "preso"? De louco, repito! Mas que falou do timming, minha querida?
- Discordo de si, mais uma vez. Ah, o timming..! - levantou-se e tirou uma espécie de carteira do bolso interior do casaco, deixando cair o lenço amarelo em cima do cadeirão - O timming.. Sabe, esta canção foi boa para si, pode interiorizá-la e pode ser que passe melhor os próximos 25 anos da sua vida. O senhor está preso - mostrou-lhe o distintivo - As acusações são de posse e tráfico de droga, gerência de prostíbulos e casa de jogo, forja de apostas, controlo de informantes, subornos, e esta lista continua.. Tem o direito de ficar calado e de chamar o seu advogado. Queira acompanhar os meus colegas que ficarão consigo a partir de agora.
Pegou no seu lenço amarelo, deixou-se cair no cadeirão e acendeu outra cigarrilha. Deu um profundo bafo, fechou os olhos e concentrou-se na música.

What you say? Hit the road Jack, and don't you come back no more, no more, no more, no more.

Sunday, August 8, 2010

Corre, Corre, Corre!

Olhou para baixo. Viu os seus pés descalços sob um infinito tapete verdejante, com papoilas vermelhas a espreitar, aqui e acolá. Sentiu as ervas altas molharem-lhe os tornozelos, e ouviu o chilrear dos pássaros em cima de si. Corre! Deu um passo, e viu dois coelhos a fugir. Corre! Corre! Corre! Correu. Correu e correu, por aquele enorme mar de verde com pequenas conchas encarnadas. Corre! E enquanto corria, deixou cair o bonito casaco de malha que levava aos ombros. Corre! E enquanto corria, sentia o seu vestidinho de linho branco ficar molhado e sujo. Corre! E enquanto corria, sentiu todas as suas prisões a desmoronarem. Corre! E enquanto corria, levantou vôo. E enquanto levantava vôo, sorria.

Wednesday, April 21, 2010

Quem és tu?

Quem és tu que eu nao conheço, e que me vens aqui sondar as profundezas da alma?

Quem és tu?

És homem, és mulher?
És criança, jovem, adulto?
Quem és tu?
Estudas?
Trabalhas?

O que fazes nos tempos livres?
Preferes praia ou campo?
Fazes colecção de isqueiros?
Chamas-te Ana ou Manuel?

Quem és tu?
Quem és tu que eu nao conheço, e que me vens aqui sondar as profundezas da alma?

Friday, April 16, 2010

- Quem és tu?
- Quem sou eu?
- Sim, quem és tu!
- Eu sou eu. E tu, quem és?
- Eu sou a Alice. Mas quem és tu?!
- O que é que isso importa? No fundo, eu sou tu, e tu és eu. Somos todos iguais. Carne, osso, células. Tu és eu e eu sou tu. Eu, tu, ele, ela. Nós, vós e eles. Somos todos o mesmo.
- Está certo, mas mesmo assim, quem és tu?

Friday, March 5, 2010

I Could Have Danced All Night

- Posso?
Era o que me faltava agora, pensou.
Não tinha paciência para conversas com desconhecidos em bares, paragens de autocarro, ou em qualquer outro lugar. Ainda assim, olhou para trás. Uns enormes olhos cor de mel fixavam-na. Um rosto redondo, moreno e umas enormes ondas pretas a vaguear no cabelo saudaram-na.
Surpreendeu-se e apontou para o banco vazio ao lado do seu:
- É todo teu.
O rapaz pousou com extremo cuidado uma pasta cor-de-laranja flurescente no chão e tomou o lugar que lhe era apontado.
- Quero o mesmo que ela.

- Olha que isto é forte - avisou-o.
Rodou no banco, apanhou a sua mala do chão e tirou um cachimbo.
- Não tens idade para fumar essas coisas! - disse escandalizado o rapaz.
- E tu já nao tens idade para andares com pastas cor-de-laranja flurescente.
O empregado pousou o copo no balcão. O rapaz deu lhe um golo e mudou de cor. Engasgou-se.
- Não tens idade para beberes estas coisas!
- E tu não tens idade para dar sermões a ninguém - bebeu o resto num só trago.
- Tens nome ou..?
- Verónica. Costumas vir para bares meter conversa com raparigas?
- Só quando estão com um copo de whisky à frente e com um cachimbo na boca.

Ela sorriu.
- Danças?
- Quando há musica, sim.
- Não a ouves?
Ele sorriu.
Levantaram-se, e junto a um balcão de um bar cheio, dançaram ao som do silêncio.

Thursday, February 18, 2010

- Mamã, mamã! O papá chegou! Já posso fazer o teatro?!
- Verónica, mais baixo querida! O papá deve estar cansado...
- Nunca estou cansado para a nossa pequenina!
Deixou cair a pasta no chão e Verónica saltou-lhe para o colo. Desequilibrou-se, mas agarrou-se rapidamente ao corrimão.
- António! Verónica, para o chão imediatamente!
- Mas mamã...
- Nem mas nem meio mas! Lá para cima, já!
A menina cerrou os dentes e arrastou-se até ao quarto.
- António, isto não pode continuar assim! Com a miúda a atirar-se desta maneira para cima de ti não duras muito! Sabes perfeitamente que na tua condição não podes andar para aí a…
- Dança comigo.
- António..!
- Vá lá, chega de conversa fiada. Vamos dançar, vamos ver o teatro da nossa filha, vamos jantar e vamos dormir. E amanhã vamos acordar e vamos comer um pequeno-almoço digno de hotel. E no fim-de-semana vamos até Cascais, ver o mar. E agora, mademoiselle, se me dá a honra desta dança…


E dançaram, e viram o teatrinho da pequena, e foram dormir. E comeram um pequeno-almoço digno de hotel, e no fim-de-semana foram ver o mar a Cascais. E tornou-se num hábito que durou todos os dias até ao último dia de António Antunes, pai, marido, e grande artista do teatro português.

Estava sentada em frente ao toucador, a retocar os lábios. Tinha os olhos carregados de preto e no cabelo levava uma rosa vermelha.
- Estás pronta, Verónica?
- Sim. Onde está o Roberto?
- No camarim dele, pergunta por ti.
- Diz-lhe que vou já.
Olhou-se uma última vez ao espelho e levantou-se. Respirou fundo, esboçou um sorriso falso e saiu.
- Mas tu estás parvo Roberto? Está a casa cheia e tu andas a fumar essas merdas?!
- Estou farto disto, Verónica. Vais ver, um dia…
- Já sei, um dia vais ser um grande actor, vais actuar no Maria Vitória, vais fazer um musical com o La Féria, e tudo mais. Eu já sei, Roberto, já sei... Mas até lá vais deixar-te destas porcarias que só te destroem a vida e vamos dar a estas pessoas aquilo que elas querem, um óptimo espectáculo. Porque é isso que nós fazemos Roberto. Porque independentemente do nosso estado de espírito, as pessoas querem um bom espectáculo. E é para isso que somos pagos. E de certeza que é isso que o La Féria espera dos seus actores. Agora apaga essa porcaria e lava a cara. Daqui a três minutos entramos.

Fechou a porta e escondeu-se atrás duma cortina. Tirou um saquinho com pó do decote e inspirou-o. Hipócrita, ouviu-se dizer.

doce de morrer.

Passados três anos, a neta passa pelo hospital onde esteve a sua avó internada nos ultimos meses de vida. Lembra-se..

- Vamos lá menina, abre o raio do armário!
- Tenha calma avó!
- Calma? Estão as pessoas a chegar, temos que esconder os chocolates!

A neta bateu com a mão na testa.
- Tantos chocolates ainda vao matá-la, avó.

Wednesday, December 2, 2009

The rainbow connection

Não quero ser uma imagem que se camufla no meio envolvente. Não quero ser um simples reflexo deste mundo pálido.

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Dêem-me cor !


Sunday, October 18, 2009

(Love is our) Resistance

E no meio daquela tempestade polar, ele correu com todas as forças que tinha. A chuva batia-lhe na cara e torvava-lhe a visão, o vento gelava-lhe os pulmões e dificultava-lhe a respiração, o solo gelado colava-lhe os pés descalços. No meio daquela imensidão branca, apenas via a cara dela na sua frente. "Nao me deixes.." - gritava - "Não me deixes!".

A cortar a cortina de neve, uns flaxes azuis escuros feriam-lhe os olhos. Ouviu o grito das sirenes ao longe. Com um poder sobre humano, redobrou a velocidade. Chegou ao local. Em pânico, olhou para todos os lados em busca de um sinal. Enquanto percorria visualmente toda a área envolvente, avistou-a.

Os seus olhos pousaram nela, e o seu corpo voou até lá. Viu as suas maças do rosto, outrora maduras e vermelhas, palidas, ainda mais brancas que a neve. Os seus olhos azuis vivos estavam agora translúcidos.

Abraçou-a, e o seu corpo, outrora quente, estava gelado como a noite. Deu um berro de desespero. Despiu-se e tapou-a com as suas roupas. O médico tentou afasta-lo dela, e ele esperneava, pontapeava, afastava-o.

Agarrado a ela, chorou, gritou, blasfemeou. Agarrado a ela, viu a vida passar-lhe em retrospectiva. Agarrado a ela, viu o momento em que tinha visto pela primeira vez aquele rosto angelical. Recordou as viagens que tinham feito juntos, os caminhos que tinham traçado, as pessoas com que se tinham cruzado. Pensou em como teria sido a sua vida sem ela.

Voltou a fitá-la, e viu, no meio da escuridão, que ela lhe sorria.

"Até amanha meu amor", murmurou.

Wednesday, September 30, 2009

Agosto 1978 - Iquitos, Peru

Ela abrira lentamente os olhos, e uma claridade verde pintava-lhe o rosto. Ouvia o chilrear das aves e os ruídos dos macacos, enquanto inalava uma estranha fragância de terra molhada misturada com o cheiro de excrementos dos animais.
Saiu da sua tenda cuidadosamente e espreguiçou-se. Olhou em seu redor: estava circundada por uma densa camada de verde e castanho. Os raios de sol espreitavam a medo entre as folhagens, deixando apenas ver uns pozinhos do azul do céu.
Pegou numa esteira, foi à sua mochila, tirou a sua tigela e o seu pacote de Cornflakes e tomou o pequeno almoco em silencio, tentando decifrar os ruidos à sua volta.
A rotina de verdes que a abraçava foi quebrada pelo azul dum papagaio solitário que foi pousar no ramo duma árvore. Ficou extasiada com aquela cor.

Tuesday, March 24, 2009

O Quarto da Casinha Amarela

Maria correu as cortinas do quarto bafiento. Abriu as janelas de par em par e deixou a casa arejar. Há quanto tempo nao ia lá? Nem se lembrava, tantos tinham sido os anos.. Tinha vivido la os melhores momentos da sua vida, caramba! Há quanto tempo tinha sido..? Destapou o pano que cobria o seu antigo espelho. Olhou-se, e viu o seu reflexo por entre as camadas de pó. Sim, tinha sido de facto há muito tempo.. Da sua beleza radiante de outrora, apenas lhe restavam os seus olhos cor de amêndoa e traços do seu sorriso.

De uma só vez, puxou os lençóis que tapavam a cama, de seguida os que tapavam a comoda, a escrivaninha, o toucador, o canapé, a estante - toda a alma do quarto ficou desnuda. Segundos depois, viu uma camada de pó flutuar sobre todo o espaço. Tenho mesmo que fazer uma limpeza nesta porcaria toda, pensou. Enquanto estudava o estado degradado das paredes, deu com uma maçaneta. Rodou-a e uma porta disfarçada pela espessa camada de sujidade abriu-se, revelando uma salinha com uma mesa no centro e com algum outro objecto estranho em cima. Maria aproximou-se. Já nem se lembrava daquela sala.. Tão pouco reconhecia o objecto que estava em cima da mesa. Pôs os óculos. OH!, surpreendeu-se. OH!, gritou. OH!, sorriu. Será que..? Olhou mais de perto. OH! extasiou-se!

Era a sua grafonola! Aquela mesma grafonola, naquele mesmo sitio! Como é que me fui esquecer deste sitio?! Procurou uma tomada electrica, e depois de muito remexer, lá encontrou uma. Foi á grafonola. Será que toca? Ligou o aparelho. A música começou. OH!, emocionou-se. Uma lagrima caiu-lhe ao longo do rosto. Era a última musica que haviam dançado.