Wednesday, January 29, 2020

A casa dos Cabrita

Deixou o vestido deslizar-lhe pelo corpo e viu o seu reflexo no espelho. Estava bonita. O cabelo ondulado pelo mar, a pele beijada pelo sol. As pessoas são sempre mais bonitas no verão, pensou.

Desviou-se do vestido prostrado no chão, levantando uma perna de cada vez e subindo para a banheira. A casa de banho, no final do pátio exterior, simples, estóica, deixava entrar o ar pela janela e a luz pela porta. Rodou a torneira para o frio e deixou a pouca pressão da água arrefecer-lhe o corpo quente.

Lavava o cabelo e observava os azulejos das paredes. Na casa de banho, tal como nas restantes divisões, os azulejos cobriam o chão e  as paredes. Forravam também toda a fachada exterior da casa. 

Os azulejos haviam sido colocados pelo seu bisavô, com as suas próprias mãos, pensando na mulher e no trabalho que esta tinha com as limpezas e as lidas da casa, pois haveria lá alguma coisa mais fácil de lavar do que azulejos? 

E haveria lá maior prova de amor? sorriu, relembrando a imagem do bisavô marreco que recordava melhor das fotografias do que das vivências.

A casa, número oito da rua principal, tinha tantos anos quanto os que ela lhes adivinhava. Fora mandada construir pelo seu bisavó, Viriato de nome, para receber e fazer crescer a sua nova família: a recém-mulher, Catarina, e a mãe da recém-mulher, Maria da Paz. 

Foi neste ambiente recheado de amor e cuidado que nasceu a pequena Emília, sua avó, primeira e única filha da família Cabrita. E foi assim que, há um século atrás, os Cabrita se instalaram na aldeia da Amorosa. 

E ali estava ela, já sem Cabrita no nome mas com Cabrita no sangue, a banhar-se naquela casa construída com e por amor. 

Wednesday, March 7, 2018

Grãos de areia


Grãos de areia que meus pés pisam, que o mar revolve, que as ondas sacodem. Grãos dourados, pedaços de rocha por onde o tempo passou e o mar esculpiu.

Grãos de areia que meus pés pisam, onde as conchas voam, onde as gaivotas pousam, onde as crianças brincam. Grãos dourados, telas em branco para histórias de castelos e reis e rainhas e príncipes e princesas.

Grãos de areia que meus pés pisam, grãos dourados onde tenho saudades de passear meus pés.

Resultado de imagem para pegadas na areia

Wednesday, February 1, 2017

Toninho tinha pela sua irmã uma incrível admiração. Do alto dos seus seis anos, a sabedoria imensa da sua irmã era para ele como uma estrela guia que o orientava naquele mundo por descobrir. Nada tinha a temer enquanto estivesse ao lado dela, porque ela tudo sabia e de tudo era capaz: era a pessoa mais sábia e mais corajosa do planeta inteiro. Do planeta inteiro e dos outros 8 planetas, que segundo a sua irmã estavam ao pé de nós num sitio chamado cisterna solar. Ele não sabia bem o que era um planeta ou uma cisterna solar, mas imaginava que se a sua casa estava num planeta e a casa da tia Balbina estava noutro, então essa cisterna solar devia ser bem grande.

Era uma daquelas tardes de Agosto com o verão no seu esplendor máximo, o vento não soprava e o sol queimava-lhes a pele. Iam a meio da sua travessia diária para casa, quando um gato miou ao lado deles.

- Olha Pravi, olha que lindo gatinho!
- Gatinho Tótó? Mas não vês que é um cão?
- Um cão?
- É Tótó, é um cão.
- Mas tem cara de gato, e orelhas de gato, e pelo de gato e cauda de gato, Pravi.
- Pois Tótó, mas esse gato é um cão.
- Esse gato é um cão.. Olha que lindo cãozinho!

Pravina soltou uma gargalhada.
- Oh meu tótozinho, não vês que é um gato?
- É um gato, Pravi?
- Pois então, nao o ouviste tu até a miar?
- Pois ouvi. Afinal o gato que passou a cão, era mesmo gato.
- Pois é um gato, claro. Não podes acreditar em tudo irmãozinho.

E seguiram o seu caminho. O gato a miar e eles a ladrar.


Thursday, December 15, 2016

Mala de Viagem

Eram um, ela e a sua Mala de Viagem. Desde que se lembrava, tinham sempre sido um. Nunca havia tido cabeça, tronco e membros; mas sim Cabeça, Tronco, Membros e Mala de Viagem. Apegados a si, eram os quatro partes de um todo que era ela. O quarto elemento era uma extensão que vinha em vários tamanhos. Semanalmente,vinha no formato de mala de cabine. Pequena, onde cabiam os essenciais, pronta a durar a semana para ser reposta nos sete dias que se seguiam. Nunca se importara com aquele apêndice que desde criança a acompanhara. Invariavelmente, todos os domingos à noite chegava o seu ritual de desarrumar e arrumar a Mala de Viagem. E assim se passavam as semanas, os meses, os anos. Assim, ela cresceu. A sua Cabeça, Tronco e Membros expandiram, mas a Mala de Viagem manteve o tamanho. Ao longo dos tempos, o ritual que invariavelmente chegava aos domingos, passou a ser variável e foi-se tornando cada vez mais esporádico. A mala que dantes desarrumava e arrumava com os seus pertences foi ficando mais vazia, cada vez com mais espaços por preencher. No entanto, e apesar do vazio inerente, para ela a mala havia-se tornado pesada, incómoda, havia-se transformado num membro não natural, um membro extra, um membro inerte. E assim, apesar de cada vez mais leve, a Mala de Viagem tornou-se-lhe pesada, de um peso insustentável que ela não podia mais suportar.

Hoje, a Mala de Viagem continua no seu quarto, permanentemente apoiada no roupeiro. Apesar da presença constante, a Mala de Viagem não é mais uma parte activa de si, mas sim um objecto que está sempre lá, mas que um dia deixará de estar. Será uma mala de viagem normal, à espera de uma viagem que lhe encha as medidas.

Saturday, January 16, 2016

ver passar navios

Há alguém que saiba o que anda para aqui a fazer? Aqui, na vida, leia-se.

É que eu cá não faço ideia. E nem é não fazer pequena ideia. É a mínima. Não faço a mínima ideia. Tenho (praticamente) 25 anos e ando a ver passar navios. Um quarto de século ainda não me deu sabedoria suficiente para saber o que ando para aqui a fazer. Ou para descobrir o que quero fazer. Ou onde quero ir. Ou que navio apanhar. Se calhar ainda apanho é uma caravela. Ou um submarino. Um submarino era interessante, lá pelas profundezas das almas insondáveis. Que poética agora. Era isso sim. Uma viagem de auto-descoberta a bordo de submarino para me encontrar, e a seguir logo entrava no navio certo. Num navio? Se calhar num avião.. E depois do avião numa nave espacial... E depois da nave espacial... Ó gente, um mundo de ínfimas possibilidades! Mas porquê tanta escolha? Diz-me lá ó Tu, porquê?? Estas opções modernas só servem para apoquentar as cabeças das pobres pessoas de (praticamente) 25 primaveras. Ó belos tempos em que a escolha era se ia primeiro dar comida às galinhas ou ir lavrar a terra. Agora são os cursos, são os empregos, são os países, são os salários, é isto e é aquilo. Ficava na aldeia e pronto, acabavam-se as decisões difíceis. Ó mundo, porque é que te tornaste mais pequeno? Agora se eu quiser ir viver para fora, posso! O ultraje! Já viste o que me fazes? Se começar a pensar em ir lá para fora também tenho que pensar na minha família, nos meus amigos, na minha renegação ao meu doce Portugal. Ó, e como é belo este meu Portugal. Não era por muito tempo, eu sei, seriam só uns aninhos no máximo. Mas um sol como o nosso não há em mais lugar nenhum. E os nossos pastéis de nata também não. Vá, e o bacalhau - só para não dizeres que não sou uma portuguesa que se preze.

Bom, para não variar, a divagação corrompeu os meus pensamentos.

Vou ali para o Tejo, ver passar os navios.