Desviou-se do vestido prostrado no chão, levantando uma perna de cada
vez e subindo para a banheira. A casa de banho, no final do pátio exterior, simples, estóica, deixava entrar o ar pela janela e a luz pela porta. Rodou a
torneira para o frio e deixou a pouca pressão da água arrefecer-lhe o corpo quente.
Lavava o cabelo e observava os azulejos das paredes. Na casa de banho, tal como nas restantes
divisões, os azulejos cobriam o chão e as paredes. Forravam também toda a
fachada exterior da casa.
Os azulejos haviam sido colocados pelo seu bisavô, com as suas próprias
mãos, pensando na mulher e no trabalho que esta tinha com as limpezas e as lidas da casa, pois haveria lá alguma coisa mais fácil de lavar do que azulejos?
E haveria lá maior prova de amor? sorriu, relembrando a imagem do bisavô marreco que recordava melhor das fotografias do que das vivências.
A casa, número oito da rua principal, tinha tantos anos quanto os que ela lhes adivinhava. Fora mandada construir pelo seu bisavó, Viriato de nome, para receber e fazer crescer a sua nova família: a recém-mulher, Catarina, e a mãe da recém-mulher, Maria da Paz.
Foi neste ambiente recheado de amor e cuidado que nasceu a pequena Emília, sua avó, primeira e única filha da família Cabrita. E foi assim que, há um século atrás, os Cabrita se instalaram na aldeia da Amorosa.
E ali estava ela, já sem Cabrita no nome mas com Cabrita no sangue, a banhar-se naquela casa construída com e por amor.