Tuesday, December 20, 2011

As aves

As aves eram feitas de cartão, penduradas por fios invisíveis num tecto pintado. Esvoaçavam sem bater as asas e chilreavam sem qualquer barulho. Viajavam por inúmeros sítios, os sítios mais belos de todos os cinco continentes do mundo, sem sequer saírem do quarto. A ele bastava-lhe fechar os olhos para se transformar numa daquelas aves de papel e migrar com elas, voando, voando, como se estivesse também ele suspenso por umas cordas invisíveis que lhe suportavam o peso. África e América do Sul eram os seus lugares predilectos. Gostava de ver a selva amazónica e os seus rios lamacentos serpenteado por entre a densa vegetação, deixando escapar os guinchos dos macacos pachorrentos e os ruídos dos papagaios histéricos. Gostava de subir e descer montanhas e cordilheiras, ver o manto branco de neve nos cumes, sentir o frio gelar-lhe a cara e por fim descer até uma qualquer povoação de índios de pele seca e curtida pelo vento frio, tomar uma chávena de chá quente acompanhada por um bolinho de mel. Gostava também da praia e do mar azul, ter a pele e cabelos salgados, as ondas a baterem-lhe nas costas e o sol quente a queimar-lhe a pele. Mas o que lhe dava realmente prazer, um prazer daqueles que ilumina a alma, era observar as pessoas, descobrir-lhes as feições, os hábitos e os costumes e compará-los entre si. Era a cor da pele, o tipo de cabelo, o formato dos olhos, do nariz, da boca, a língua, os risos, as tradições.

Para ele, aquelas aves feitas de cartão tinham o tamanho de águias e voavam livremente pelo céu azul, assim como voam os aviões, os pássaros e as borboletas. Não que os aviões voem espontaneamente, mas o facto é que voam a sério, a sério e a altitudes a que não chegam nem os pássaros nem as borboletas, tal e qual como para ele eram capazes de voar as aves de cartão... Sim, aquelas aves que ele próprio havia moldado e pintado eram para ele verdadeiras companheiras de voo, autênticas guias de viagens, eram as suas melhores amigas.

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