é boa hora? perguntou-me. toda a hora é boa quando se tem tempo. entra. ele entrou. entrou e o tempo passou, sem se dar por ele. os ponteiros, que deviam marchar sincronizados no relógio, pareciam ter perdido a disciplina. se antes caminhavam lentamente, como se estivessem em missão numa floresta lamacenta, chuvosa, de ervas altas e de difícil penetração, desde que ele entrara, haviam mudado de universo e estavam agora a nadar na leveza do mar. por cada passo que davam avançavam por cinco braçadas em simultâneo, e navegavam todos os oceanos num só respirar. os ponteiros corriam sem se dar por eles, davam a volta às horas e nenhum de nós se apercebia. se não fosse a escuridão de que os olhos se começaram a queixar, poderíamos ter ficado ali até ao cair das folhas do próximo outono. mas a escuridão chegou, os olhos queixaram-se, o relógio regularizou e a conversa terminou. ele saiu, e a hora que estava a ser perfeita, voltou a ser boa. porque toda a hora é boa quando se tem tempo.
Sunday, October 11, 2015
Friday, October 2, 2015
Love is not love
Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.
Tuesday, September 1, 2015
Diz-me lá porquê
Sabes que mais? Eu se tenho verdadeiramente pena
de algo, é de que o amor dos tempos de hoje não seja como o amor dos tempos de
ontem. Um amor como os amores que vêm retratados nos livros. Não proprimanente
um amor trágico à Shakespeare, mas um amor à Gabriel Garcia Marquez, um amor à
Pablo Neruda, um daqueles amores em que uma pessoa se apaixona só de ler a
história dos apaixonados. Porque é que o amor do agora não é como o do
antigamente, olha que merda? Um amor intenso, vivido, sentido. Um amor como no
dos livros. Um amor em que se valoriza tudo. Tudo! Cada palavra, cada suspiro,
cada sussurro e cada silêncio. – Fez uma pausa para retomar o folêgo - Os
pequenos gestos morreram. Onde está uma flor colhida num jardim num regresso a
casa? Onde está um bilhete rabiscado antes de sair de manhã? Onde está um
pequeno passeio ao luar ou um sentar num banco de jardim e contemplar a
infinitude do céu? Diz-me lá.. Porque é que o amor do agora não é como o do
antigamente? Um amor em que se estima cada sorriso, pois se sabe o quão
dolorosa é cada lágrima. Um amor em que se acarinha cada presença, pois se sabe
quão solitário é cada ausência. Um amor em que se vive cada momento, pois se
sabe o quão efemero é viver... Diz-me lá então, porque é que o amor do agora não é como o do
antigamente?
Wednesday, July 23, 2014
Dernière Danse
- Are you ok?
- I'm not used to this.
- To what?
- Being far from the people I like. I dont even know how it works.
- Neither do I. What I know is I want to be with you. Where you are. And see what happens to us.
- I'm not used to this.
- To what?
- Being far from the people I like. I dont even know how it works.
- Neither do I. What I know is I want to be with you. Where you are. And see what happens to us.
Sunday, June 29, 2014
"C'est tout comme toi"
Pétillante: Pleine de vie, souriante, éveillée et qui charme par son côté rayonnant; Pleine de vie, enjouée, plein de gaieté et qui prend et la vie et les choses en general du bon coté; Vivante, craquante, qui degage de la fraîcheur. Une femme qui quand tu l'approches tu te sens respirer, tu te sens bien.
One month of Lisbon
Já vi Lisboa do ar. Já tive uma surpresa no aeroporto. Já recebi uma turca, um espanhol, um alemão e um mexicano. Já tive um almoço cozinhado por uma chinesa. Já falei com um advogado e já fui a uma escola de condução. Já passei uma tarde no IMT. Já fui ao ISCTE. Já passei uma tarde no hospital com o Miguel. Já fui a uma conferência de microcrédito. Já mandei 3 emails em francês. Já fui a Sintra e ao Estoril. Já comi petiscos em Sesimbra. Já fui ao Portinho da Arrábida. Já fui à piscina e à praia. Já comi um gelado numa esplanada. Já fui duas vezes a pé até ao relógio. Já almocei com toda a minha família. Já fui correr pela expo. Já senti saudades. Já estive no chat até às 6h da manhã. Já fui à feira do livro. Já vi 3 jogos de Portugal fora de casa. Já vi uma lua cor de laranja com os meus amigos. Já comecei e acabei um livro. Já fui aos santos populares. Já fiz de guia turística. Já me senti turista. Já adiantei a minha tese. Já falei mais em ingles que em portugues. Já estive sentada no pardão da praça do comércio à noite. Já fui passear com o Ruca. Já chorei. Já encontrei a Andreia duas vezes. Já preparei as coisas para receber dois franceses no próximo mês. Já fui deixar uma prostituta bêbeda a casa. Já procurei apartamentos no Porto. Já mudei o meu quarto. Já recebi pessoas duas vezes em minha casa. Já dormi em casa da Mariana. Já fiz pizzas caseiras em casa do Gonçalo. Já comprei três bilhetes para o Alive. Já me apaixonei.
Monday, June 17, 2013
Tuesday, January 22, 2013
Monday, January 21, 2013
Coisa estranha, Roberto
Sabes Roberto, no outro dia pus-me a pensar. Isto a morte é uma coisa estranha. Tanto estamos vivos, até que de repente, olha!, está-se morto. Parece que ainda hoje oiço a voz dele a comentar: a minha Verónica é que um dia ainda vai ser uma estrela, vocês vão ver, ainda vamos estar nós aqui e está ela no Villaret com casa cheia. Já lá vão sete anos Roberto. E todos os dias oiço a voz dele. Falo com ele, até. Ás vezes até chego a duvidar de mim próprio sabes, então mas que raio, já lá vão sete anos que andas a falar com um morto? É estranho, isto da morte. Estamos vivos, pimba, estamos mortos. Está um gajo descansado da vida, dá-lhe a travadinha, pimba, morreu. E diz-me lá, ó Roberto, se ele sempre falou comigo, todos os dias desde que me lembro, então porque é que agora hei de parar de falar com ele, só porque está morto? Diz-me lá tu qual é o sentido nisso. Fica lá de pensar nisso e depois dizes-me. Mas como estava a dizer, ontem passei pelo Villaret e não é que estava mesmo a Verónica lá num cartaz?
Então mas eu não te tinha dito que a minha Verónica ia ser uma grande estrela?
Saturday, December 8, 2012
Tuesday, September 25, 2012
Heróis do mar, nobre povo.
Hoje, ao ver o que se passou em Madrid, senti um profundo orgulho no povo português. Apesar de todas as falhas e todos os defeitos apontados, orgulhei-me de fazer parte deste país que começa a acordar da sua apática sonolência, que começa a reivindicar o que lhes foi tirado e o que é seu por direito. Hoje, ao ver as imagens da capital do nosso país vizinho, ao ver a violência gratuita, os cidadãos sedentos de guerra e a brutalidade policial, orgulhei-me do nosso quintal à beira mal plantado. Orgulhei-me da organização, do espírito de cooperação, da não violência. Orgulhei-me do "keep calm and protest". Cheirou-me a cravos.
Monday, September 17, 2012
MscBA
A todos aqueles que estão agora a começar as aulas, só posso desejar que gostem tanto de onde estão como eu estou a gostar.
Monday, July 30, 2012
Um bom livro
Apetece-me ler um bom livro. Um daqueles que nos transporta para um outro universo, que nos faz embrenhar nas histórias das pessoas e nas pessoas da história. Um daqueles livros nos quais é impossível dizer chego até ao próximo paragrafo e paro, e no qual assim sendo se seguem capítulos e capítulos de letras conjugadas em palavras, por sua vez conjugadas em frases, temperadas com exuberantes pontuações, fazem voar a minha mente e levitar o meu corpo, para um lugar longe, bem longe. Há tanto tempo que não leio um bom livro.. E a falta que isso me faz.
Monday, June 18, 2012
You made mommy cry
Why did you do that daddy? Don't you know mommy loves you? And now you made her sad and now she's crying. Tell me daddy, why did you do that? Do you like to see mommy crying? Well, I dont. And I don't think you like it either. So daddy, why don't you kiss mommy so that everything can be fine and she can stop crying? You know, one day my friend Bianca took my batman's car and I yelled at her. But then she started to cry, just like mommy is doing now, so I said I was sorry and I gave her a kiss on her cheek and she stoped crying and she was just fine! So tell me daddy, why dont you just kiss mommy and tell her you're sorry?
Wednesday, June 13, 2012
Entra, senta-te.
Entra, senta-te. Abre a janela se queres, está um bafo que não se pode. Estás confortável? Sim, podes fumar, mas manda o fumo lá para fora. Olha, dá-me também um cigarro então. Estou a ver se largo, hoje ainda não fumei nenhum. Que se lixe, também, ou morro do tabaco ou de amor. E sabes que mais? Percebi que prefiro morrer com os pulmões estragados do que com o coração partido.
Monday, June 11, 2012
Papoilas
Papoilas são as flores favoritas da minha mãe. A mim lembram-me sevilhanas a dançar ao vento.
Friday, June 8, 2012
Hoje, nas margens do Tejo
Hoje, nas margens do Tejo, o azul do céu e o esverdeado do rio uniram-se num só. Hoje, nas margens do Tejo, foi-me difícil distinguir os contornos daquela tela, perceber onde começava e acabava tal obra. Talvez não acabasse. Talvez não começasse. Ou talvez hoje não me importasse perceber onde estava o início e o fim. Hoje, nas margens do Tejo, fui turista no meu próprio lar. O normal, hoje, nas margens do Tejo, foi ver pessoas de cabelos claros e pele branca a dialogar em línguas estrangeiras. Hoje, era como se o Tejo fosse deles. Eu era um mero peão no mundo deles, no rio deles. Era eu a turista. Era eu a de pele e cabelos escuros que falava uma língua estrangeira. Hoje, nas margens do Tejo, fui só eu. Só eu e a minha bicicleta. Hoje, nas margens do Tejo, fui só eu, a minha bicicleta e todas as outras pessoas por quem cruzei. Vi-lhes os rostos, decorei-lhes as expressões, adivinhei-lhes os sentimentos, inventei-lhes histórias. Hoje, nas margens do Tejo, fui só eu, a minha bicicleta e a minha imaginação. Hoje, nas margens do Tejo, estive em harmonia com o rio. Em harmonia com a natureza. Em harmonia comigo. Hoje, nas margens do Tejo, fui feliz.
Monday, April 30, 2012
Maria Castanha sobre Maria de Jesus, aspirante a freira
Lembro-me de uma que aqui chegou, toda menininha. Católica dos pés à cabeça, desde o nome até à figura, trazia sempre um terço no bolso e uma imagem da Virgem. Coisa que eu achava imensa graça, porque virgens ali só mesmo a da imagem. E ela, provavelmente. Apareceu-me cá pela primeira vez, devia ter os seus 23 anos, mais coisa menos coisa. Ainda me passou pela cabeça se estaria interessada em juntar-se a nós, eu sei lá, podia ser uma daquelas com um estilo mais antiquado, mas tal ideia desfez-se em pó mal abriu a boca. Queria saber se podia deixar entrar a luz e transformar aquela casa numa casa de Deus. Numa casa de Deus, foram essas as palavras dela. Ai mãe, a vontade que me deu de rir. Tanto que deu, que soltei uma gargalhada como acho que não soltava há anos. Uma casa de Deus. Disse-lhe que não, que deus não morava ali e não se podia mudar, já tínhamos os quartos todos ocupados. O que era verdade, era uma noite especialmente agitada. Mas Deus quer entrar nesta casa, quer limpá-la dos pecados e torná-la cândida. Pediram-me na minha paróquia para vir aqui e.. Não ouvi mais. Agradeci-lhe muito lembrarem-se de nós na paróquia dela e mandei-a embora, até porque tinham chegado mais clientes e ela começava a incomodar-me. Nem quis ser rude, mas não ia ser o passatempo ou a caridade de ninguém. Nunca pensei que ela voltasse, mas três dias depois, lá estava ela, Maria de Jesus, aspirante a freira.
Wednesday, April 18, 2012
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