Sabes Roberto, no outro dia pus-me a pensar. Isto a morte é uma coisa estranha. Tanto estamos vivos, até que de repente, olha!, está-se morto. Parece que ainda hoje oiço a voz dele a comentar: a minha Verónica é que um dia ainda vai ser uma estrela, vocês vão ver, ainda vamos estar nós aqui e está ela no Villaret com casa cheia. Já lá vão sete anos Roberto. E todos os dias oiço a voz dele. Falo com ele, até. Ás vezes até chego a duvidar de mim próprio sabes, então mas que raio, já lá vão sete anos que andas a falar com um morto? É estranho, isto da morte. Estamos vivos, pimba, estamos mortos. Está um gajo descansado da vida, dá-lhe a travadinha, pimba, morreu. E diz-me lá, ó Roberto, se ele sempre falou comigo, todos os dias desde que me lembro, então porque é que agora hei de parar de falar com ele, só porque está morto? Diz-me lá tu qual é o sentido nisso. Fica lá de pensar nisso e depois dizes-me. Mas como estava a dizer, ontem passei pelo Villaret e não é que estava mesmo a Verónica lá num cartaz?
Então mas eu não te tinha dito que a minha Verónica ia ser uma grande estrela?
1 comment:
O encanto da partida fica sempre nos que ficam, fica aprisionado na terra a que pertencíamos e que deixámos. O que vai é o medo e a esperança.
Há partidas reversíveis, com possibilidade de regressar para o colo quente do que se deixou.
Esta não.
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