Eram um, ela e a sua Mala de Viagem. Desde que se lembrava, tinham sempre sido um. Nunca havia tido cabeça, tronco e membros; mas sim Cabeça, Tronco, Membros e Mala de Viagem. Apegados a si, eram os quatro partes de um todo que era ela. O quarto elemento era uma extensão que vinha em vários tamanhos. Semanalmente,vinha no formato de mala de cabine. Pequena, onde cabiam os essenciais, pronta a durar a semana para ser reposta nos sete dias que se seguiam. Nunca se importara com aquele apêndice que desde criança a acompanhara. Invariavelmente, todos os domingos à noite chegava o seu ritual de desarrumar e arrumar a Mala de Viagem. E assim se passavam as semanas, os meses, os anos. Assim, ela cresceu. A sua Cabeça, Tronco e Membros expandiram, mas a Mala de Viagem manteve o tamanho. Ao longo dos tempos, o ritual que invariavelmente chegava aos domingos, passou a ser variável e foi-se tornando cada vez mais esporádico. A mala que dantes desarrumava e arrumava com os seus pertences foi ficando mais vazia, cada vez com mais espaços por preencher. No entanto, e apesar do vazio inerente, para ela a mala havia-se tornado pesada, incómoda, havia-se transformado num membro não natural, um membro extra, um membro inerte. E assim, apesar de cada vez mais leve, a Mala de Viagem tornou-se-lhe pesada, de um peso insustentável que ela não podia mais suportar.
Hoje, a Mala de Viagem continua no seu quarto, permanentemente apoiada no roupeiro. Apesar da presença constante, a Mala de Viagem não é mais uma parte activa de si, mas sim um objecto que está sempre lá, mas que um dia deixará de estar. Será uma mala de viagem normal, à espera de uma viagem que lhe encha as medidas.
Hoje, a Mala de Viagem continua no seu quarto, permanentemente apoiada no roupeiro. Apesar da presença constante, a Mala de Viagem não é mais uma parte activa de si, mas sim um objecto que está sempre lá, mas que um dia deixará de estar. Será uma mala de viagem normal, à espera de uma viagem que lhe encha as medidas.
No comments:
Post a Comment