As pessoas confundem sexo com amor. Eu sei lá, confundem, não percebem que uma coisa não tem nada a ver com outra, que uma coisa é animal outra é assim sentimental. E não é preciso que tenha uma coisa a ver com outra. Ás vezes quando acabo o serviço passo pela sala e oiço-as a contar as histórias delas e dos seus eternos apaixonados. Eternos? Eternos pois, até lhes aparecer o próximo que seja mais dócil. O que vale é que elas também vão ganhando juízo ao longo do tempo. Às vezes chegam cá com grandes esperanças, com sonhos do tamanho do mundo, pensam que vão conhecer o príncipe encantado que as vai tirar desta vida. Isto não é um filme, é o que lhes digo. Isto não é um filme, e ainda que fosse, nenhuma de vocês é a Julia Roberts nem nenhum deles é o Richard Gere. E elas ignoram-me e comentam entre elas a velha amarga que eu sou e quem terá sido que me partiu o coração. Pensam que têm razão, que sabem tudo, estas meninas de 20 anos. Já muitas por mim passaram, todas com o mesmo comportamento. Ela sabe lá o que diz.. Aposto que já em nova era feia, não há de ter ficado sozinha. Vais ver que connosco vai ser diferente, mais cedo ou mais tarde ele aparece aí. Tu vais ver. E depois crescem. Crescem, vivem, ganham experiência. E percebem que as suas esperanças nunca se vão realizar. Não só porque isto não é um filme, mas também porque elas já não são novas nem bonitas. E se dantes eram arrogantes comigo ao pensarem que sabiam tudo, ao crescerem tornam-se azedas, como se a culpa de terem continuado nesta vida sem serem resgatadas por nenhum cavaleiro andante fosse minha. Como se me importasse muito. Mas onde é que eu ia? Ah sim, o sexo e o amor. A culpa está toda no amor. Se toda a gente percebesse que sexo é sexo e amor é amor, estas meninas de 20 anos que aqui me chegam nunca teriam estes sonhos, nunca chegariam arrogantes e partiriam azedas. Porque já sabiam para o que vinham. Nenhum homem que venha aqui à procura de sexo anda à procura de amor. Era isto que lhes dizia quando era nova, quando ainda as queria proteger da vida. Até que elas começaram a não querer a estar ao pé dos meus negativismos, olha que com essa atitude claro que nunca vais encontrar ninguém. Foi remédio santo. Nunca mais tentei desconverter ninguém, e deixei-as, feitas parvas, a acreditar que sexo é amor e que amor é para sempre.
(...)
3 comments:
Encantos fantasiosos, salgados pela espuma das ondas que rebentam na areia macia e que apaga as palavras soltas por la marcadas.
Quantas palavras já o Mar roubou a uma qualquer cana, que na extremidade de uma qualquer mão desenhou vocábulos febris e exacerbados? Tantas caligrafias absorvidas para se rebolarem, envolverem, embaterem e voltarem a enrolar-se no tão saudoso Mar, que afinal é uma subjetividade da existência.
Quantos Amores estão hoje cristalizados em pedras salgadas? Ou quantos acompanham a corrente? Ou Ou OU
Sei la! Sei la eu, porque escrevi o que só o Mar leu e nunca me devolveu. "Sei la eu o que é o Amor". E porque deveria eu saber?
Entrei no quarto e a porta ruidosa que fica em frente à cama não foi capaz de me denunciar.
Os corpos despidos, que de tão entrelaçados perdiam a forma humana, compunham uma quantidade de sons, ora agora surdos ora agora estridentes, acompanhados por movimentos desconcertantes e endiabrados deixando em seu redor uma málaga de devastação e reboliço. As vozes eram áridas ao tentar acabar algumas frases pequenas - imperceptíveis aquela distância pelo cerco de ruídos.
Conseguia ver as pingas de suor que lhes escorriam pelo dorso e como as bocas as absorviam anestesiadas pelo desejo. Apeteceu-me escrever ali naquele momento e diante daquela imagem, mas não saberia porque palavra começar, nem sequer se ia ter tempo de acabar, antes de se deixarem um no outro e repararem no meu corpo ali tão coberto e tão pálido, quando comparado com os seus.
Saí e fechei a porta daquele instante fugaz.
continue
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